A VOZ DE UMA NOVA ESTÓRIA

 “Sou o canto que vai denunciar, e veja/Sou praga que vai se alastrar, que seja/Sou o povo que vai se libertar, vem ver e veja”.

Por meio da música, ela não se cala frente às problemáticas de seu tempo e através de um brado questionador, a atriz, cantora e compositora baiana MANUELA RODRIGUES confirma a sua profecia. O verbo, magistralmente musicado, se manifesta por meio de uma voz clara e pujante. Com doçura contestadora, ela revela o compromisso claro e perene de protestar. Nos convidando a também questionar o velho, anuncia o tempo de uma nova história.

Seguindo a trilha do autodescobrimento, as estórias de Manuela, emblematicamente, se confundem com a história de cada vivente baiano, brasileiro. Feridas, fracos e fortes, prato e pão, casa e chão, ilustram as escolhas tortuosas de um cotidiano coletivo conflituoso e arcaico, herança de sucessivos projetos de poder.

Oh triste Bahia, já constatava Castro Alves. Brasil... como derivaria Cazuza. Os primeiros caminhos foram os da Colonização. Uma vez colonizados nos acostumamos a obedecer. A Escravidão sucede a quientista submissão e mancha a igualdade dos discursos. Escravizados, institucionalizamos a indiferença. A Ditadura quis ditar uma nova ordem. Optou-se pela livre violência. Em tempos ditos modernos, a pseudodemocracia ainda alimenta desmandos, descasos e indicações ao sabor do Coronelismo e ou do prepotente Capitalismo.

No decorrer desta sucessão de tempos difíceis, muitos preferiram emudecer. E essa herança governou. Todavia, houve os que se recusaram em conformar. Conquistas se efetivaram e a história mudou. Desse modo, como em toda boa estória, essa narrativa, também se substância por alegrias, outras verdades e principalmente pela capacidade de discordar e se “rebelar”.

Sob esse contexto, “subversiva hodierna”, Manuela discursa criticamente, com propriedade e sabedoria em seu primeiro trabalho musical. Mergulha no mar de sua essência, buscando traçar a sua e a coletiva consciência. Dotada da ciência de se indignar, traça novas ROTAS - Projeto musical vencedor do Prêmio Braskem Cultura e Arte 2003, que culminou na feitura do seu primeiro CD com este título - ao se caminhar. Musicando, ricamente seu verbalizar, se indaga quem é? Onde está? Por que continua a velha história de mandar, de obedecer, de indicar?

Contudo a nova história é também amorosa, romântica e existencialista. Manuela aborda a conquista, a paixão pura e verdadeira, em suas inadvertências e congruências e, os apresenta com uma roupagem ao mesmo tempo inovadora, sem deixar de se valer de ritimicidades clássicas. Sob este aspecto, este rico trabalho musical inova e não se intimida com a habituidade do fazer e manifestar música.

Música que de fato, encontra espaço para se manifestar. Em seu conteúdo, mas também, criativamente, em melodia. A sonoridade produzida pelos instrumentos estabelece ideal contexto para a voz que emana da essência de Manuela. Acarinhada, o som humano de felicita e se encoraja ainda mais para cumprir o seu papel: propiciar pensamento e emoção.

Com esta função, o cintilante som dos instrumentos de corda e do piano se acoplam à fluidez da voz de Manuela e introduzem os questionamentos, com ABERTURA. Com uma análise crítica realista e incentivadora, a composição VELHA HISTÓRIA, dá um puxão de orelhas na porção pejorativa do jeitinho brasileiro. É momento de findar as facilidades e espertezas para dar espaço à liberdade do equilibrado de pensar e agir.

ENQUANTO EU ME ENCONTRO, marca um encontro consigo, na ausência do objeto de amor. Aponta para a recorrente estória caracterizada pela perda da própria individualidade e busca de uma sonhada felicidade. Falta, costume, convivência, um caminho. Rota da fantasia, como apresenta a circense ERA UMA VEZ. O conto de fadas, a historinha de final feliz, de quem diz acreditar. Realidade encantadora, porém, mantenedora apenas do sonhar; a qual não pode suprir toda a necessidade real do amar.

TÔ, de Tom Zé e Elton Medeiros, expõe em ritmo dos antigos carnavais, as complexidades pelas quais passamos para nos fazer entender, vivendo neste paradoxal mundo humano da atualidade. Tempos ditos modernos que, todavia repetem antigas tradições, repugnáveis condutas como a do pistolão, em outras palavras, o QI – quem indica. De maneira antológica e musicalmente inovadora, QUEM QUIS MUDAR assinala nesta direção, mostrando-se, porém otimista e crente na mudança. Manuela escolhe questionar a calar e nos convida a não, com esta prática, compactuar.

Novamente gozar do que outrora se perdeu. Ter DE VOLTA o sentimento que me fizera em sua carência perder a rota. Clarificar a consciência de que a emoção também abarca a lamúria, mas que sinaliza também para a novidade, pós-saudade. Assim, a esperança se alimenta numa melodia marcada pela ideação e livre imaginação. Reflexão também que, sem barreiras, aflora num dia de domingo. Dia em que inesperadamente percebe-se que tudo está em vias de mudar. A alegria, a fantasia, uma sucessão do tempo que de tão corriqueira e simples, não se percebia, mas realmente ERA O DIA. Nesta canção, uma aura astral se estabelece e a letra floresce.

ROTAS dá seguimento à atmosfera sideral e continua a apontar para a inventividade criativa de Manuela e de seus parceiros musicais, num belo improviso. Só interrompido por ALELUIA de Edu Lobo e Ruy Guerra, onde se informa a respeito da tomada de decisão, a necessidade de um caminho a seguir, o qual levará ao verdadeiro viver e à vitória das atitudes que tragam equilíbrio e bem estar. Sem medos, sem receios. É mais do que hora.

E para tanto é imperioso que se COMUNIQUE. Num ritmo dançante a canção aponta para o procurar respostas, perguntar, expressar os sentidos, não deixar de ver. Observar a realidade dos cotidianos, como trás CONTO DE SALVADOR. Sob uma atmosfera melódica, sonhadora e pura, que faz rememorar as décadas de 50 e 60, há a modificação de uma dura realidade, num encontro de amor e sonhos. Mais uma vez, resquícios sócio-culturais da velha estória que antecedem o equilíbrio, inclusive amoroso, do novo narrar.

BUENAQUELE LUGAR, apresenta-se como um saudosismo te um tempo, um lugar bom. Divagação de sentimento e de rememoração. Um clima amoroso e fraterno que abre propicia espaço para a doce MARIANA. Homenageando a sobrinha Manuela, nos lembra como o sincero e verdadeiro bem querer, na verdade e fantasia da criança. direciona-nos para o sonhar e realizar nossas ambições. São verdadeiras fontes de incentivo e inventividade. Idéia que a lírica BERCEUSE, do erudito compositor irlandês Charles Ives, delicadamente complementa.

E assim, sentimo-nos mais seguros e temos voz. Uma voz fisiológica, moral e social, que se faz presente e atuante, edificando de fato, os caminhos de uma NOVA HISTÓRIA. A canção que se inicia com o verbo declamado de Manuela, percorre cada proposta de mudança e altivez, trazidas por este trabalho musical. Uma alternativa foi exposta, de maneira simples, contundente e amorosa. A história de cada um que se incomoda com o desequilíbrio e quer, ardentemente, verdadeiramente fazer diferente e ser mais feliz.

 

2006.

 

 

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