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| ESPORTE PODE NÃO SER COMPETIÇÃO | |
Geralmente quando nos aproximamos de algum evento esportivo, são feitos retrospectos informando as origens, os significados, as regras e os recordes das modalidades praticadas. Quanto à finalidade, aponta-se que o objetivo maior é o congraçamento, a união e a boa convivência entre os participantes. Estes competiriam respeitando uns aos outros num completo clima de paz e harmonia. Mas... Será mesmo? Por certo que o esporte é um caminho que pode levar à promoção da saúde mental e física. Ele propicia um conjunto de aspectos positivos que envolvem o desenvolvimento psíquico e motor, o enfrentamento de dificuldades de ordem corporal e emocional e a superação dos próprios limites entre tantos outros benefícios. Assim, penso que o esporte em si é prática essencialmente salutar. Mas envolvido pelo contexto competitivo, e devido a isto, entremeado por tantos interesses comerciais, políticos, sociais e culturais será que a violência, a ganância, a injustiça, a vaidade, a intolerância e o egoísmo não acham espaço concomitante de manifestação? Competições envolvem rivalidade, concorrência e luta e estas abrigam um limite muito tênue entre edificação e destruição.Em meio à competição, diante de uma derrota, é recorrente atletas chorarem e sofrerem. Quase que esquecem naquele vão momento de eleição dos “melhores” e “piores”, de todo o crescimento e aprendizado que alcançaram, assim como das dificuldades que enfrentaram e superaram. Parecem até mesmo esquecerem de que o esporte, em muitos casos, livrou-os de agruras sociais, de contextos discriminatórios e criminosos. Ou ainda, algumas vezes o choro da derrota ilustra o depósito de todas as expectativas e planos de uma vida naquele afazer (o esporte), limitando alienadamente a gama de possibilidades do ser humano; restringindo-a (e restringindo-se) a uma única e exclusiva atividade. De modo similar, é extremamente recorrente o fato de os torcedores padecerem em meio à derrota ou dificuldades enfrentadas por seus times, por suas seleções. Ao assumirem simbolicamente a derrota do objeto de sua torcida, sofrem profundamente e se esquecem de problemas mais prementes em suas vidas, assim como de sentimentos e valores mais altivos. Competindo, muitos atletas são seduzidos pela efêmera sensação de superioridade sobre os demais. Representando uma bandeira e ou uma ideologia, se perdem na vaidade de um grupo, de uma nação e assim menosprezam aos que estão à sua volta. Por sua vez assistindo a uma competição, pessoas procuram identificação e diferenciação a fim de suprir o vazio da depreciada igualdade que enfrentam em sua cotidianidade. Desse modo lutam pela diferenciação imposta por um mundo perverso. O qual, globalizado e predominantemente capitalista, que para sobreviver procura justificar a existência dos “maiores” e dos “menores” por intermédio das ações competitivas, inclusive na seara esportiva. Um exemplo histórico da falência de uma paz almejada por meio da prática do esporte em contexto competitivo, é o das olimpíadas em meio às duas grandes guerras mundiais. Sabe-se que, sob determinado aspecto, competições esportivas foram utilizadas (penso que ainda o são) com o intuito de aliviar o mundo da sanha mortífera de conflitos armados a exemplo das guerras, ou ainda objetivando abrandar problemáticas de natureza sócio-econômica. Na realização das olimpíadas em meio às guerras, de fato, o discurso pacifista inevitavelmente assumiu uma efetividade e um peso maior. Era o momento de os “cavalheiros” deixarem de lado os milhares de mortos, as cidades destruídas, as doenças e a fome para competir com honra e humildade em busca da paz. Em verdade estes objetivos não passaram de ilusões, pois a competição que se interrompeu nos campos de batalha perdurou nos campos olímpicos. As armas deram lugar às pernas, braços, pés e cabeças; as conquistas territoriais, o dinheiro, as jóias e as riquezas naturais estavam representadas pelas medalhas e por um lugar ao pódio. Equivoco crer que as olimpíadas interromperiam a manifestação do espírito belicoso do homem de então. Mudaram as vestimentas e as ações. Mortos não apareciam no estado físico, mas sim em contexto moral e conseqüentemente faleceram em sua dignidade perante os consagrados “superiores”. A hierarquia da competição olímpica se refletiu (ou foi reflexo?) nos campos de batalha e no cotidiano das relações internacionais entre os países. Na atualidade, embora não haja guerras declaradas que envolvam diretamente todos os países, é inevitável perceber que o clima marcial, próprio do contexto competitivo - seja na guerra, seja no esporte ou em qualquer outra atividade humana - continua a se manifestar. E talvez, exatamente por não haver hoje guerras de proporções mundiais declaradas é que o mote pacifista para a prática esportiva em um contexto competitivo se apresente ainda mais como uma verdadeira utopia. A competição esportiva acaba por substituir a competição de batalha. Dessa maneira, estamos habituados a perceber e praticar o esporte estando profundamente envolvidos pela atmosfera da competição. Pode-se argumentar: “- Ora, é natural. O instinto do homem é competir, lutar, vencer!”. De fato a natureza instintiva certamente está presente e certamente o mundo o qual criamos, é produto de uma verdadeira permissividade à vazão desta natureza aguerrida. O Homem é um ser que parece ainda crer que necessita competir para extravasar seu desejo beligerante. Eleger o (ou um) melhor é ação perseguida insistentemente e de forma natural, numa busca valorizada e incentivada. Assim, a diferença acha espaço e a igualdade desmorona. Questiono a naturalidade com a qual competimos e concomitantemente nos diferenciamos e nos hierarquizamos nas mais diversas esferas relacionais. Conseqüências desta prática no campo político, econômico, social, cultural... ? Paz? Que paz? 2008 |
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