TEMPO, SEI.


Numa reflexão contemporânea, o cantor e compositor cearense ZÉ GUILHERME musica com sabedoria as dores e as delícias do suceder.

A impermanência absorve experiência e emana serenidade, no sentimento do amigo Marcelo Quintanilha; que em sua poesia sortida, dá espaço de manifestação à de Zé, fantasia. E a constatação dessa essência, emociona e reflete efemeridade. Mas não há receio em demasia, não há desejo em pura alegoria, há a voz que a passagem acaricia. À Zé diria e atribuiria: real caminho... Sentindo-me em casa, sentido há, casa. Em poltrona, sou tudo e como sou, todos. Com tempo passo e faço, o meu tempo, a mim mesmo. Muitos, eu, só, com, todos, sou, eu. Em atmosfera caseira, cometo a minha festa. No meu jeito, do meu tempo.

O qual parece representar ainda, por meio dos traços irregulares, incompletos, porém complexos, totais, significativos tais como o... Tempo, a passagem, a instabilidade estável do viver. Os desenhos e as pinturas de Bettina Vaz Guimarães.

Já introjetado e transformado o sofrido e perverso tempo da correria, agora num contexto absorto, TEMPO AO TEMPO é um gostoso e imprescindível autocuidado, provável fruto de autoconhecimento, de experiência, de boa vivência para si, para tudo e todos, dentro do mundo (interno e externo).

Neste segundo CD, Zé Guilherme interpreta um anseio dito, sentido universal. Sentimento manifestado de modo reflexivo ao mesmo tempo em que poético, dançante e esfuziante. E desse modo, passeia por ricos e gostosos discursos musicais; sentimentos originalmente próprios, alheios, compartilhados.

É uma linda aparição... Um profícuo e delicioso modo de expor sua inquietação. Sua humana (in) paciência em CANÇÃO DE ESPERAR VOCÊ. Na composição de Alexandre Leão e Júlio Andrade, aliada a uma melodia simples e agradável, Zé aborda o tempo da espera que aporta na resignação amorosa; sustentada pelo desejo, pela paixão. Vazão que acaba por obedecer a secessão das emoções, das manifestações, dos ciclos dos fenômenos, enfim, em fato, do TEMPO AO TEMPO. Que com as palavras e a emoção de Marcelo Quintanilha, Zé Guilherme num toque veloso (Caetano), discorre a respeito.

Extremamente dance, disco, FLOR MADRINHA de Péri, ganha da versatilidade de Zé um modo especial e único de pontuar sobre o tempo perdido ou “mal empregado” nos modelos, estereótipos de ser, de estar no mundo nas esferas relacionais como no amor - destaco o vocal que Zé expõe aqui - que constituem, portanto a ILUSÃO DA CASA, por Vitor Ramil. Habitação da fantasia, da alegria do recolhimento, do acolhimento, da reflexão. Uma pseudo-segurança em termos da necessidade, da alteridade, da verdade (de cada um). Pois em verdade a mudança, natureza do tempo é a plena residência...

E numa suave melodia, os CAMINHOS DO CORAÇÃO, de Gonzaguinha, são ainda mais expostos e constatados em reflexão com a delicada e larga percepção de Vania Abreu. Zé Guilherme rememora uma trajetória de coragem, de vitória (individual e coletiva) em meio às suas raízes... O tempo que amadurece, que ensina e que marca lembrando de uma evolução. Uma celebração do desejo de crescer. Tempo que também ensinou que não há de fato solidão, apenas momentos, se quisermos, de não.

E o que se parece se querer é uma REZA (Zeca Baleiro e Paulo Leminski) transcendental, toque multicultural de berimbau... Insights proporcionados pela mediação do passar dos acontecimentos e da manutenção dos humanos acréscimos. Surge um novo éu (eu). Self corporificado, repaginado, recriado pelo Sr. Tempo, o complacente ESCULTOR. Ocupando-se da limpeza do esculpir, Cris Aflalo e Fred Mazzucchelli compõem lindamente e Zé Guilherme interpreta com muita verdade, a real estação. Musicalidade que reverencia com respeito e sem receio, a sucessão.

Visão que compreende e passa a satisfazer o MAIS COM MENOS (Marcelo Quintanilha). Aceitar as possibilidades, não com conformismo, mas com inteligência e parcimônia. Afinal, os sonhos precisam respeitar os tempos a fim de serem realidade. Esperar menos - ser realmente menos - para ter mais - ser muito mais. Tudo que pode ser. Assim sendo REMA REMADOR (Carlos Careqa); que caminha, envelhece, apreende. Você é forte, integral, humano em geral e sua dor não é regra afinal. Portanto, como numa fantasia romântica literária, de posse de uma rica e delicada poesia, a SECA tem... e a chuva vem, com o tempo. O sentimento em seu natural andamento. A primeira arrasa e a chuva se antropomorfa, lavando a dor.

Com a percepção de João Ricardo, num ritmo extrovertido, latino, quase cigano, Zé pontua sobre a necessidade do desprendimento... Incapacitados que estamos de abarcar a intensa cotidianidade moderna junto à quase inevitabilidade do apego... No contexto, o mais poderoso e relativo de todos, o amoroso. Se o relógio é o trabalhador ordinário, o tempo é então o PATRÃO NOSSO DE CADA DIA. Um amo imperioso que não quer se perder, portanto que o amor chegue logo, que a relação venha, que a nossa noção, tenha; nem que para isso PEGUE UM TÁXI, o do Careqa (Carlos).

CANTO GERAL, do próprio Zé Guilherme e da doce e perspicaz Cris Aflalo, é o própria representação pulsante do tempo de ser feliz. Numa atmosfera caribenha-africana-baiana (extremamente contagiante), a tristeza por vezes produto da insuficiência de tempo, se transforma em alegria, leve, liberta, despreocupada. Afinal, a tristeza está na Bahia! E aqui não pode sobreviver. A alegria já voltou, com certeza.

E a seca retorna e mais uma vez é banhada, encurralada, lavada e renovada pela chuva. Um tempo cíclico, exuberante, esperançoso, gostoso. O tempo de todos nós, o tempo de Zé Guilherme.

 

2006.

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